sexta-feira, 12 de maio de 2017

Cantiga

Iluminura medieval retratando músicos trovadores
Muito me alegro com este verão,
com estas ramagens, com estas flores,
com as aves que cantam entoando amores.
Ando eu tão alegre e tão descuidado
qual nesta estação todo o enamorado
se sente de amor mui ledo e loução.

Quando pelas margens dos rios passeio
debaixo das árvores, por prados viçosos,
se pássaros ouço cantar amorosos
com eles de amor me ponho a cantar;
de amor com os pássaros fico-me a trovar;
mil cantigas faço e nelas me enleio.

Muito me eu alegro, deleito e sorrio
quando as aves ouço cantar no estio.

Airas Nunes (1230-1289)
Versão: modernizada de Natália Correia

domingo, 19 de julho de 2015

Memória

Oleg I. Shuplyak
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exato,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tato,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago (1922-2010)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Único Livro

Thomas Moran
Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
– como as mulheres calmucas todas as manhãs –
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
– o Volga, onde à noite celebram Rázin;
– o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
– o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
– e tu, Mississípi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
– e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
– e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
– e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
– e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
– e o Tâmisa, no seu tédio cinza.
O gênero humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice –
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
– lições de uma lei divina –
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

Vielimir Khlébnikov (1885-1922)
Tradução: Haroldo de Campos

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A fome é curável

Joel Rea
O homem entrou no hospital
e disse: “Não me sinto bem”.
Então, extraem-lhe o apêndice
e lavam-no com formol.

“Sente-se melhor?” Responde: “Não”.
Mas os médicos dão-lhe coragem
e cortam-lhe a perna esquerda,
garantindo: “Agora vai ficar bom”.

Continua a sofrer, no entanto,

e enche de gritos o hospital.
Para descobrir o que pode ser,
praticam-lhe uma cesariana.

Embora doutíssimos no ramo,
os cirurgiões fazem caretas.
Mudo, sem forças para gritar,
ele morrer, não morre não.

Esvai-se-lhe pouco a pouco o sangue,
o ar já lhe vai faltando?
Serram-lhe três costelas,
e finalmente expira.

O cirurgião-chefe contempla o cadáver.
Aí pergunta-lhe um estudante:
“Que coisa tinha esse pobre diabo?”.
O doutor, engasgado, murmura:
“Acho que era apenas fome”.

Erich Kästner (1899-1974)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Tédio

Romero Torres
Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

Lugar algum

Claude Monet
Não há
lugar algum
aqui
nem alhures.

Aqui não existe.
Alhures não é.
Nós não temos nada a buscar.

Esperar é vão.
Preciso é habitar o tempo
multíplice,
ser o seu símil.

Com ele como ele
sem ter parada
eu passo
dizendo adeus
dia após dia
às figuras
que a noite
vertiginosa
carrega.

Jean Tardieu (1903-1995)
Tradução: Mário Laranjeira