sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Carpe Diem

Charles Francois Jalabert
Colha o dia, confie o mínimo no amanhã.
Colha o dia, confie o mínimo no amanhã.

Quintus Horatius Flaccus (65 - 8 a.C.)
Tradução: Orlando Pinheiro

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A Beleza

Charles James Lewis
E um poeta disse: Fala-nos da Beleza.
E ele respondeu:
Onde buscareis a beleza, e como a
encontrareis, a não ser que ela seja vosso
caminho e vosso guia?
E como falareis dela, a não ser que
ela teça vosso falar?

Os aflitos e os feridos dizem: “A
beleza é bondosa e gentil.
Como uma mãe, meio envergonhada
de sua própria glória, ela caminha entre
nós”.

E os apaixonados dizem: “Não, a
beleza é uma coisa de poder e horror.
Como a tempestade, ela sacode a
terra abaixo de nós e o céu acima”.

Os cansados e extenuados dizem:
“A beleza murmura docemente. Ela fala
ao nosso espírito.
Sua voz ilumina nossos silêncios
como a fraca luz que tremula no medo
da escuridão”.

Mas os incansáveis dizem: “Nós a
ouvimos gritar entre as montanhas.
E com seus gritos, vieram os sons
dos cascos, e o bater das asas e o rugir
dos leões”.

À noite, os sentinelas da cidade
dizem: “A beleza surgirá com a aurora
do leste”.

E ao meio-dia, os trabalhadores e
os caminhantes dizem: “Nós a vimos
inclinando-se sobre a terra pelas janelas
do crepúsculo”.

No inverno, dizem os que estão cobertos
de neve: “Ela virá com a primavera,
saltitando sobre as colinas”.

E no calor do verão, os camponeses
na colheita dizem: “Nós a vimos dançando
com as folhas do outono, e vimos neve
em seu cabelo”.

Todas estas coisas dissestes da beleza.
Mas, na verdade, só falastes dela as
necessidades não satisfeitas, e a beleza não
é uma necessidade, mas sim um êxtase.

Não é uma boca que tem sede, nem uma
mão vazia estendida para frente, mas um
coração inflamado e uma alma encantada.

Não é a imagem que veríeis, nem a canção
que ouviríeis, mas uma imagem que vedes,
apesar de vossos olhos estarem fechados,
e uma canção que ouvíeis, apesar de vossos
ouvidos estarem surdos.

Não é a seiva dentro da casca sulcada,
nem uma asa ligada a uma garra, mas um
jardim sempre em flor e um bando de anjos
sempre em voo.

Povo de Orfalese, a beleza é vida quando
a vida revela sua face sagrada.
Mas vós sois a vida e vós sois o véu.
A beleza é a eternidade mirando-se
num espelho.
Mas vós sois eternidade e vós sois o espelho.

Kahlil Gibran (1883-1931)
Tradução: Bettina Gertrum Becke

domingo, 19 de julho de 2015

Compromisso

Vasili Alexandrovich Kotarbinsky
Transportam meus ombros secular compromisso.
Vigílias do olhar não me pertencem;
trabalho dos meus braços
é sobrenatural obrigação.

Perguntam pelo mundo
olhos de antepassados;
querem, em mim, suas mãos
o inconseguido.
Ritmos de construção
enrijeceram minha juventude,
e atrasam-me na morte.
Vive! — clamam os que se foram,
ou cedo ou irrealizados.
Vive por nós! — murmuram suplicantes.

Vivo por homens e mulheres
de outras idades, de outros lugares, com outras falas.
Por infantes e velhinhos trêmulos.
Gente do mar e da terra,
suada, salgada, hirsuta.
Gente de névoa, apenas murmurada.

É como se ali na parede
estivessem a rede e os remos,
o mapa,
e lá fora crescessem uva e trigo,
e à porta se chegasse uma ovelha,
que me estivesse mirando em luar,
e perguntando-se, também.

Esperai! Sossegai!

Esta sou eu –— a inúmera.
Que tem de ser pagã como as árvores
e, como um druida, mística.
Com a vocação do mar, e com seus símbolos.
Com o entendimento tácito,
instintivo,
das raízes, das nuvens,
dos bichos e dos arroios caminheiros.

Andam arados, longe, em Minh’ alma.

Andam os grandes navios obstinados
.

Sou minha assembleia,
noite e dia, lucidamente.

Conduzo meu povo
e a ele me entrego.
E assim nos correspondemos.

Faro do planeta e do firmamento,
bússola enamorada da eternidade,
um sentimento lancinante de horizontes,
um poder de abraçar de envolver
as coisas sofredoras,
e levá-las nos ombros como os anhos e as cruzes.

E somos um bando sonâmbulo
passeando com felicidade
por lugares sem sol nem lua.

Cecília Meireles (1901-1964)
in Mar absoluto e outros poemas-1945-

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quando os dias se movem

John William Waterhouse
Usamos nalgumas coisas uma violência simples
isso é romper os símbolos que envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os dias se movem
se escolheu os limites para a pele aderir

No fundo de nós mesmos omitem-se tais coisas
e criam-se ficções, defesas, crueldades
dos jogos da aparência (à vista nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos contrários

E contudo se movem se quem amamos fere
e o faz de razão fria ou esquecidamente
e a alegria se torna um torpe imaginários
quem muito amamos mata: vai-nos desinventando.

Vasco Graça Moura (1942-2014)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A árvore sem folhas

Andrew Wyeth
A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um pouco antes

René Magritte
Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para
sempre.

Ferreira Gullar (1930-2016)