sexta-feira, 12 de maio de 2017

Perfume exótico

Frederick Carl Frieseke
Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Percebo abrir-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastros e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que á beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire (1821-1867)
Tradução: Ivan Junqueira

domingo, 19 de julho de 2015

Céu claro

J. Fernando
Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

sexta-feira, 15 de maio de 2015

O Grito dos Que Estão Sendo Comidos pela América

Thomas Moran
O grito dos que estão sendo comidos pela América,
Outros pálidos e macios estão sendo armazenados para mais tarde

E Jefferson
Que viu a esperança em novas aveias

As casas selvagens continuarão
Com seus longos cabelos crescendo entre os dedos dos pés
Que à noite se levantam
E descem correndo as longas estradas brancas
As barragens trocam o rio pela solidão do deserto

Ministros que mergulham de cabeça na terra
A carne pálida
Que se espalha culposa em novas literaturas

Isto é porque estes poemas são tão tristes
Antigos mortos correndo pelos campos

A massa afundando aos poucos
A luz no rosto das crianças se apagando aos seis ou sete anos

Cedo o mundo se dissolverá nas pequenas colônias dos que forem salvos.

Robert Bly
Tradução:Lêdo Ivo

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A árvore sem folhas

Andrew Wyeth
A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

William Carlos Williams (1883-1963)
Tradução: José Paulo Paes

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Um pouco antes

René Magritte
Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
pensa
ao veres no horizonte
sobre o mar de Copacabana
uma nesga azul de céu
pensa que resta alguma coisa de mim
por aqui
Não te custará nada imaginar
que estou sorrindo ainda naquela nesga
azul celeste
pouco antes de dissipar-me para
sempre.

Ferreira Gullar (1930-2016)

A Imagem Divina

Gustave Doré
A Dó, Piedade, Paz e Amor,
Todos oram em sua aflição;
E a essas virtudes de valor
Retribuem com gratidão.

Pois Dó, Piedade, Paz e Amor
São Deus, nosso pai amado;
E Dó, Piedade, Paz e Amor
São o Homem, seu filho e cuidado.

E humano é o coração da Piedade,
O Dó se mostra em humana face,
O Amor é humana divindade
E a Paz, um humano disfarce.

Cada homem, de cada clima,
Que prece em desespero faz,
Reza à forma humano-divina:
Amor, Piedade, Dó e Paz.

E devem amar ao aspecto humano
Pagão, judeus e muçulmanos.
Onde há Amor, Dó e Piedade,
Também reside a Divindade.

William Blake (1757-1827)
Tradução: Gilberto Sorbini e Weimar de Carvalho