segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um só amor

Elisbeth Sonrel
Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma. A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida. Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.
Odylo Costa Filho (1914-1979)

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A fome é curável

Joel Rea
O homem entrou no hospital
e disse: “Não me sinto bem”.
Então, extraem-lhe o apêndice
e lavam-no com formol.

“Sente-se melhor?” Responde: “Não”.
Mas os médicos dão-lhe coragem
e cortam-lhe a perna esquerda,
garantindo: “Agora vai ficar bom”.

Continua a sofrer, no entanto,

e enche de gritos o hospital.
Para descobrir o que pode ser,
praticam-lhe uma cesariana.

Embora doutíssimos no ramo,
os cirurgiões fazem caretas.
Mudo, sem forças para gritar,
ele morrer, não morre não.

Esvai-se-lhe pouco a pouco o sangue,
o ar já lhe vai faltando?
Serram-lhe três costelas,
e finalmente expira.

O cirurgião-chefe contempla o cadáver.
Aí pergunta-lhe um estudante:
“Que coisa tinha esse pobre diabo?”.
O doutor, engasgado, murmura:
“Acho que era apenas fome”.

Erich Kästner (1899-1974)
Tradução: Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Tédio

Romero Torres
Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar.

Giuseppe Ungaretti (1888-1970)
Tradução: Geraldo Holanda Cavalcanti

Lugar algum

Claude Monet
Não há
lugar algum
aqui
nem alhures.

Aqui não existe.
Alhures não é.
Nós não temos nada a buscar.

Esperar é vão.
Preciso é habitar o tempo
multíplice,
ser o seu símil.

Com ele como ele
sem ter parada
eu passo
dizendo adeus
dia após dia
às figuras
que a noite
vertiginosa
carrega.

Jean Tardieu (1903-1995)
Tradução: Mário Laranjeira